Viagens


Teresiiiinaaa. Uhh!! Uhh!!

Lembra do Velho Guerreiro? Daquele Velho Palhaço? Pois é, o que quê o ser humano não precisa fazer pra ganhar uma grana. É foda. Se bem que o Abelalardo Barbosa, tava com tudo e não tava prosa. Menino levado da breca deve ter levado todas aquelas chacrétes prá conhecer a discoteca. O velho não era fraco não, mas não vim aqui falar da Teresinha caraca. Ia ,e ainda vou, juro, falar de Teresina, no Piauí. E vou falar bem, porque falar mal de Teresina é até sacanagem.
Quem foi o gênio que fundou uma cidade naquele fim de mundo e ainda disse que ela seria a capital do nobre estado do Piauí?
Chegando lá você percebe que Teresina não é só um cafundó perdido no meio do nada nordestino. Tá certo, é um cafundó perdido no meio do nada mas também é uma cidade com avenidas largas, cheia de arvores e com uma praça antiguinha no centro, com coreto, teatro, um cinema “art noveau” restaurado e um mercado de artesanato decente e limpo.
É pouco?
É, mas quem já teve a brilhante idéia de passar uns dias em Teresina, assim por vontade própria?
Quantas vezes você ouviu alguém dizer que no próximo verão vai passar uns dias lá em Teresina, o novo point de turismo do nordeste?
Para uma cidade que deve ter um um índíce de turismo nulo, uma cidade que não tem obrigação de se arrumar para quem vêm de fora, ter uma praça antiguinha no centro, com coreto, teatro, um cinema “art noveau” restaurado e um mercado de artesanato decente e limpo é uma coisa bem legal, um sinal de auto suficiência e orgulho próprio.
Ponto para Teresina.
Visitei a UFPI – Universidade Federal do Piauí, num sábado de manhã e a biblioteca tava cheia, bem cheia de uma moçada estudando matemática, física. juntos e enquanto estava por lá caiu um toró daqueles e fiquei lembrando das enormes e inúmeras goteiras nas bibliotecas da USP. E por lá nada.
Mais um ponto para Teresina.
A 5 minutos do centro tem o bairro de Poty Velho. Parece que você está na Amazônia acredite. É onde os dois rios que banham a cidade, Poty e Parnaíba, se encontram. No restaurante flutuante do “Parque Ambiental do Encontro das Águas” tem uma calderada de um peixe daquelas águas com uma cachaça chamada mangabeira, uma cerveja bem gelada e, junto com uma porção de piabinhas fritas de entrada é mais um ponto prá Teresina. Vai contando.
Antes ou depois, melhor antes, do almoço, impossível não parar no comércio de artesanato de cerâmica que fica na estrada que leva ao parque, onde melhor que comprar é ver como se faz a queima das peças de barro em fornos a lenha montados quase no meio da rua.
Prá encerrar, tentei comprar uma camisa do time de futebol da cidade, o ilustríssimo “River” e só achei camisas do Flamengo, Barcelona e Real Madrid. O moço da loja disse que tem que encomendar. Ponto contra.

Você conhece Aracajú? Aposto que não.
O menor estado brasileiro é um ermo que bem pouca gente conhece.
É Nordeste, vizinho da Bahia, tem boas praias, mulher bonita etc… só que ninguém vai. Fui fotografar uma matéria de turismo sobre a cidade mas não deu, não tinha assunto suficiente e a solução foi se meter no sertão para conhecer algumas cidades como São Cristóvão, uma cidadezinha antiga e bem preservada que vale a gasolina que se gasta para chegar lá.
Na divisa com Alagoas, nas margens do São Francisco tem o lago da hidroelétrica de Xingó, onde da beira da barragem sai um barco até o que sobrou de canyons que tinham mais de 100 metros de altura e que em qualquer país civilizado seriam preservados e valorizados como incríveis formações geológicas, mas por aqui o negócio é fazer uma barragem e encher d’agua em nome de um progresso que não chegou naquele cafundó.
Beirando o São Francisco, da barragem até o mar, o rio recupera um pouco de sua dignidade em cidades antigas e bem preservadas como Piranhas, (uma incrível cidade toda colorida no lado das Alagoas) ou caindo aos pedaços como Propriá e Penedo. Ainda volto pra lá, porque bem ou mal a navegação à vela ainda existe naquelas águas e vou fotografar para essas páginas de projetos especiais.

Salinas é uma cidadezinha no nordeste mineiro pouco antes da pobreza do Jequitinhonha e que por uma sorte qualquer dessas da vida pegou carona no fetiche da cachaça de Anísio Santiago, um produtor que decidiu que sua cachaça era mais que especial e começou a vendê-la pelo preço de whisky escocês. O povo acreditou e o que veio depois tem mais a ver com psicologia e todo um papo cabeça sobre como algo vira moda, fetiche, do que com a qualidade da cachaça, que é boa, “boazinha”, como o nome da cachaça do maior maluco beleza da região, Antonio Rodrigues, que de maluco tem só o jeitão, usando uma fantasia diferente cada dia da semana “só pra chocar esse povinho besta” diz ele vestido de santo beneditino. O sujeito percebeu o potencial da produção da cachaça na região, ajudou a criar o slogan da “Capital Mundial da Cachaça” e além de produzir e comercializar a Boazinha e a Seleta (que são as cachaças de Salinas que mais tem em SP) produz os insumos para que outros comecem a produzir também. Quer um alambique de cobre? Um tonel de umburama? Fermento? Apostilas? tem tudo lá com o seu Antonio.
Sobre a Havana, atual nome da cachaça feita hoje em dia pelo filho de Anísio Santiago, não sei nada. Sei que é boa. Comprei uma garrafa na época que estive lá e pouco a pouco estou estudando o assunto.

Buenos Aires é tudo que um paulista queria que São Paulo fosse.
Uma cidade minimamente arrumada, pessoas civilizadas e falar de um estado de espírito é algo um tanto vago e meio aviadado, mas andar por aquelas ruas e ficar vendo aqueles velhinhos de paletó e gravata, aqueles tantos cafés, aqueles prédios antigos e preservados, aquelas taças de vinho por três, quatro pesos, dá uma tristeza saber que tão perto de nós tem um lugar que a despeito de problemas financeiros bem mais profundos que os que enfrentamos a tantos anos, soube manter a dignidade, um jeito decente de viver e bairros inteiros perto do centro vivem suas vidas sem serem devastados.
A sensação que sempre tenho que São Paulo foi uma grande cidade para se viver até o início dos anos 70, se materializa andando por aquelas ruas e lembrando o que aconteceu com o Bom Retiro, por exemplo, que de bom e de retiro sobrou só o tiro (sorry, não agüentei o trocadilho). Toda aquela arquitetura que fez o Brasil famoso, justamente nos anos 60, aquele bem viver classe média urbana foi abandonado por uma falta de projeto que deu nesse caos que vivemos hoje.
Resumindo, você anda por aqueles bairros do centro de Buenos Aires, lembra do Largo da Batata e dá uma certa tristeza.
Fui de férias em Julho de 2006, conheci bem pouco da cidade e fotografei menos ainda mas queria deixar essa página aberta para ter que voltar lá tantas vezes quanto for necessário para essa página ter uma cara decente.

Rondônia não dá.
Imagine o fim do mundo.
É lá.
Um lugar sem cara que não tem nenhum sentido em existir; Nasceu de um projeto furado de um capitalista que só queria enganar o governo brasileiro e boliviano numa maracutaia que parecia saída do congresso nacional nos dias de hoje e ao invés de se esquecer tudo e deixar a mata tomar conta, Rondônia teimou e na base do vamos roubar tudo logo porque senão outro vêm e leva tudo no meu lugar, vai sendo pouco a pouco, (ou melhor, muito e muito, dado que a riqueza é imensa) roubada, dilapidada em cada árvore na pouca mata que ainda sobrou, nos peixes que são mortos por uma gente que não sabe que amanhã vai ter fome de novo e que não adianta pescar com dinamite e redes miúdas todos os peixes que vêm pela frente.
Porto Velho é uma cidade espalhada sem nenhum atrativo especial a não ser o Rio Madeira que por ser enorme agüenta o tranco da poluição e nas épocas de seca (setembro a março) mostra imensas pedras e dá pra ver o tamanho do rio lá do meio. A coisa é tão triste que a maior atração da cidade é um enorme ferro velho abandonado caindo aos pedaços onde ficam os escombros da ferrovia Madeira-Mamoré, prá quem gosta existem imensas pontes de metal perdidas pelo interior, no meio do nada.
Tem também as queimadas que não é um privilégio só de Rondônia mas de toda essa região norte do Brasil que literalmente começa a pegar fogo em agosto e vai torrando até a chuva ter forças para apagar tudo, o que só ocorre em janeiro, fevereiro ou março, não sei. Enquanto isso as pessoas vivem esses meses de molho em uma fumaça branca que dá vontade de sair gritando, correndo pelas ruas de Porto Velho dizendo prá cada pessoa que passa que não é possível um ser humano achar normal passar 4, 5 meses por ano sem ver um céu azul, e ainda dizer que é sempre assim, que sempre foi assim e eu acho que só vai piorar ou você acha o quê? Que a partir do ano que vêm a Europa e o Japão vão parar de comprar madeira e/ou carne brasileira e esse bravo povo brasileiro vai dizer chega, que o negócio agora é preservar a pouca natureza que resta e ir pra casa ler um livro?
Chega digo eu.
Veja as imagens desse fim de mundo.
Espero que goste.
Esqueci de dizer que o calor é insuportável.
PS. Quando você pensa que tudo por lá já era suficientemente ruim, nosso nobre sindicalista decidiu dar uma força e destruir literalmente a única atração turística natural do estado que é a cachoeira de Santo Antonio fazendo uma hidroelétrica superfaturada. É o pogresso, eles dizem.