Diários Ordinarios


Parte um

Vou te contar uma coisa.
Tá foda. Não tô aguentando mais.
Tô a quase um mês internado nesse barco, indo de não sei onde prá lugar nenhum porque disseram que o legal seria a viagem e não chegar ao final.
Não aguento mais nada desse lugar.
O cassino é caro e metido a besta.
Odeio a comida sem gosto e de ter que se arrumar para ir comer.
Não faço porra nenhuma o dia inteiro. Tem um monte de cursos e palestras todos os dias mas eu lá sou homem de me meter em curso ou palestra? Tá me estranhando? Comecei o curso de golfe mas foi só mandar aquelas bolinhas pro mar chutando e pediram para eu me retirar.
Aliás o que mais tem por aqui é gente prá te dizer o que você não pode fazer e o mais incrível de tudo é não poder pescar. Deve ter peixe prá caralho nesse marzão todo, trouxe toda minha tralha, desviei uns peixes crús para iscas no último jantar e na hora da pescaria mesmo veio gente de todo lado prá me encher o saco.
Merda.
Merda de vida essa que fui inventar prá mim só prá mostrar que fiquei rico.
Tava bem trabalhando lá com seu Vitor, ele arrumava os trampos, eu olhava, dizia o que tinha que ser de material, ele saía, trazia tudo e eu ficava lá trocando telha, arrumando piso em casa de bacana.
Tava tudo bem com minha Neuza que aqui dentro desse barcão nem vejo por onde ela anda. Cada dia é uma chapinha nova. Tem uma academia que não entro lá por nada lá em cima mas ela adora. Vai ver tá tendo um caso com um daqueles moleques e eu ainda vou passar por corno. Era só o que me faltava.
Tem mais 8 dias prá chegar na Espanha. Eu na Europa. Prá quê? Queria ver a Torre Eiffel mas já me disseram por aqui que ela é longe do mar. Tem que pegar um trem prá poder ver. Pegar um trem !? Se for como os trens lá do Cariri onde meu pai morava tô lascado. Vai chegar só no ano que vêm.
Tudo é sempre um pouco difícil, já reparou. Eu por exemplo, tava na minha trampando lá com Seu Vitor. Tinha construído minha casa com lage e tudo de bom, aí ganhei na loteria e o que era prá ser, prá ficar mais fácil, ficou mais dificil porque os nóias lá da vila ficaram sabendo da minha nova situação e começaram a querer saber como que é que ia ficar. Não ia ficar, eu lá sou homem de dar dinheiro prá vagabundo?
Mas aí a chapa ferveu por lá e a Neuza inventou esse troço de cruzeiro marítimo. Dar um tempo, foi o que ela falou. Você paga uma grana, entra nessa joça gigante e não faz porra nenhuma durante um tempo que prá passar tá foda. Outro dia encanei de ficar olhando prôs ponteiros do relógio prá ver se eles andavam mesmo mas aí achei que tava ficando louco e parei.
Achei uns caras da manutenção, eles andam sempre em grupo, de macacão azul, com um radio prá fora do bolso e pedi prá ver se eu podia ajudar eles com alguma coisa mas de novo disseram que não pode. Nem foram eles que me falaram, os caras são todos japas, e falam uma língua estranha sempre rindo e não entenderam nada do que eu falei pra eles.
Outro dia segui dois deles prá ver onde iam mas tem uma parte do barco lá prá baixo e bem lá na frente que não pode ir, os japas mesmo não deixam, te mostram uma placa, passam por uma porta e fecham ela na sua cara. Então você fica por aí bestando, andando prá lá e prá cá, sem rumo. No terceiro andar tem um bar com umas jarras de suco grátis, mas elas tão sempre vazias e você mostra prô cara do bar a jarra vazia e ele fala numa lingua estranha alguma coisa que eu mais uma vez não entendo.
Como será que tá o Seu Vitor? Será que já arrumou alguém prá ficar no meu lugar? E minha casa? Dona Dora disse que ficava de olho mas hora dessas os manos tomam conta e aí já era. Ainda bem que não comprei aquele DVD novo mas a TV tava da hora. Chega de ficar aqui nessa tela de computador escrevendo. Ajuda a passar o tempo mas é bem chato também. Vou lá ver se já chegou o suco. Volto já.

De: Orlando Soares Silva

Parte dois.

Voltei. Na verdade já se passaram vários dias desde que achei essa sala com computadores e comecei a escrever. Comecei a escrever, vê se pode. Passei quase 30 anos sem escrever nem uma frase no papel de pão e agora tô aqui de bacana escrevendo num computador. A loira aqui do meu lado perguntou se era prô meu brogui. Brogui, nunca ouviu falar? Nem eu, mas dei uma risada, disse oh yes e percebi que depois dessas semanas todas internado nesse barco posando de bacana tô me sentindo como numa novela em que faço parte da parte dos ricos. Sempre reparei que nas novelas tem os ricos e os pobres que se encontram mas nunca se misturam de verdade tipo o rico casando com a pobre e se mudando prá casa dela. As vezes a pobre casa com o rico só prá ser esculhambada pelas amigas ricas e invejosas do cara e se der certo no final ela se vinga. Tinha também um filme com uma dessas gringas famosas, uma bem magra que nesse filme é uma puta e o cara se apaixona por ela. Lembro que ela rouba o fio dental do hotel e fica falando prás amigas que o trouxa é um cara super legal. Aí ela se faz de difícil, vê se pode, puta se fazendo de difícil e aí é que o troxa, um com uma cara bem de gringo otário, se apaixona de vez. O final eu não lembro mas também não lembro por que começei a escrever sobre isso então tudo bem.
Nesse barco é tipo um Big Broder gigante, sei lá como se escreve isso, e as vezes penso que tem alguém me filmando e aí vou ver tem mesmo um cara que filma as pessoas o tempo todo prá depois passar no telão do restaurante na hora do jantar.
Vou ter que confessar que paguei esse mico, de calção vermelho, barrigão mais vermelho ainda, meio briaco na beira da piscina e aí chegou esse cara da câmera e eu comecei a fazer umas caretas tipo engraçadinho sabe? Me ferrei, o cara começou o vídeo show dele outra noite com minha careta e toda vez que ela aparecia o pessoal ria, mas ria mesmo e a Neuza só me dando bicuda na canela por baixo da mesa. Acabei como o palhaço da noite. Fiz a diversão desse bando de desocupados que ri até de gaivota perdida no céu. Aí aparece um trouxa feito eu fazendo micagem, era só o que eles estavam esperando pra rir feito umas bestas.
O bom foi que a loira aqui do meu lado na sala de computadores também achou graça e hoje ela até puxou conversa mas ainda não conseguimos nos comunicar porque ela fala uma língua que parece que tá falando ao contrário e eu também não ajudo, começo a gaguejar em português mesmo e no final não sai nada. Ela me mostrou em um mapa de onde ela veio, ou melhor, esta voltando. É bem lá em cima do mapa e tem o melhor nome para um lugar bem longe: Finland. Descobri que land é terra em inglês, quer dizer, terra do fim. Terra do fim do mundo deve ser mas essa loira rindo aqui do meu lado não sei não. Já pensou ? Eu de caso com uma loira dessas. O problema é que não sei nem por onde começo o xaveco porque a gente só se olha e ri um prô outro e pensando bem é assim que deveria ser a vida: Todas as mulheres loiras de verdade e sempre sorridentes.
Nesse computador tem um dicionário de português e inglês, achei também um de inglês e finlandês porque preciso saber umas palavras para o meu curso intensivo de como transar com uma gringa loira sem ser jogado ao mar por uma mulata ciumenta.
Primeira palavra: sózinha. Em inglês é alone e em finlandês “ainoastaan”.
A próxima: Caraca, não sei qual a próxima coisa prá perguntar usando só uma palavra. Tinha que ser alguma coisa do tipo “vamos tomar um drink hoje depois do jantar?” mas como resumo tudo isso em uma palavra só? Drink? Em finlandês é “juoma”. Depois é after e jantar é dinner. Em finlândes é jalkeen e paivallinen. “Oi, você quer um drink after do dinner?”, depois dou aquele meu sorriso 7B, tento a versão finlândica “Hei sina juona jalkeen paivallinen?” com o mesmo sorriso e aí é só arrastar a gringa prô quarto dela. Amanhã conto as novidades aqui nesse meu brogui.

Parte três

Pobre é uma merda mesmo, nem quando fica rico toma jeito. Nem vou te contar agora a merda que deu essa minha história de passar um xaveco na gringa. Mas vou mudar um pouco de assunto antes.
Teve uma vez que tava trampando numa mansão lá no morumbi e tinha umas minas sem a parte de cima do biquíni na piscina da casa, elas não viram que eu tava trabalhando no telhado e eu fiquei na minha só apreciando a vista mas aí duas delas começaram a se beijar. Vê se pode? Elas eram lindas, ricas e, vai ver que por isso mesmo, sapatas. Fiquei pensando que era a versão feminina daquela música que fala “porque homem é homem, menino é menino, político é político e viado é “viado”, sabe qual é? Tem uma parte que ele explica que a baitolagem muitas vezes é adquirida, a pessoa experimenta de tudo na vida e fica tão experimentado que acaba virando viado. Com essas meninas deve ter acontecido a mesma coisa. Como elas tinham tudo, ser sapata era só mais uma aventura, como usar drogas, dirigir bem rápido. Sei lá.
Tá vendo no que dá o sujeito não ter o que fazer o dia inteiro? Vira filosofo. Quer dizer, eu já era filosofo em cima daquele telhado, só não tinha tempo de ficar escrevendo sobre a baitolagem adquirida. Meu negócio era mesmo pegar no batente todo dia logo cedo pra conseguir pagar minhas contas mas agora tudo mudou. Se eu quiser posso ter uma casa igual aquela do morumbi com um baiano só prá arrumar o telhado e meus filhos não vão precisar trabalhar, vão poder ficar na piscina se beijando na boca. Ser rico pode ser uma merda também.
13, 24, 27, 44, são os números do meu RG, 30 a minha idade e 32 a idade da Neusa e esses eram os números que sempre jogo, quer dizer, todo ano muda um pouco mas jogo esses números toda semana na Mega Sena e não é que um dia deu seco esses 6 números? Fui conferir no jornal que tava no carro do Seu Vitor e devo ter ficado bem branco porque ele parou o carro achando que eu tava tendo um troço, fiquei engasgado e não conseguia falar nada. Só apontava prô jornal e quando ele entendeu o que estava acontecendo só ouvi ele rezando, “Valha me Deus minha Nossa Senhora” Na hora não entendi por que ele começou a rezar mas depois ele me confessou que estava cheio de dívidas e que eu poderia ajudar ele nesse departamento.
Quando fomos lá na Caixa com o bilhete ele me ajudou na conversa com o gerente, falando prá não colocar todo o dinheiro na poupança e sim num outro negócio chamado, sei lá eu, CDB, DCB, não sei agora, mas que ia me deixar mais rico ainda e então eu disse que poderia ajudar ele com as dívidas e ele começou a chorar ali na minha frente e do gerente.
Vou ter que parar agora, depois conto o resto.

Diários ordinários

Autor: Orlando Soares Silva
Idade: 36 anos

Parte quatro

Nessa minha história de como fiquei rico tinha que ter essa parte então agora que já contei vou voltar prás histórias aqui do barco e contar a merda que deu com a gringa quando falei do drink after dinner com meu sorriso especial. O que aconteceu foi que ela começou a rir, me apresentou uma outra loira bem maior que ela só que com o cabelo bem curto, uma camiseta sem mangas e sem sutiã.
Saquei a merda logo que essa outra loira veio chegando e me fuzilou com uma cara de brava. A sorte foi que o que ela disse prá Neusa foi numa mistura de varias línguas mas a Neusa, que não nasceu ontem, nem anteontem, quando chegou na cabine me mandou o tamanco na cabeça e queria me proibir de vir até aqui ficar escrevendo no computador. Depois dei uma de macho e disse que ia proibir ela de ficar tanto tempo na academia e a história acabou por aí mesmo. A loira sumiu daqui da sala e agora prá falar a verdade nem tenho mais do que contar. Se lembrar de mais alguma coisa volto.