« Diários Ordinários | Home | Teresina, Piauí »
Diários Ordinários
de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008
Parte um
Vou te contar uma coisa.
Tá foda. Não tô aguentando mais.
Tô a quase um mês internado nesse barco, indo de não sei onde prá lugar nenhum porque disseram que o legal seria a viagem e não chegar ao final.
Não aguento mais nada desse lugar.
O cassino é caro e metido a besta.
Odeio a comida sem gosto e de ter que se arrumar para ir comer.
Não faço porra nenhuma o dia inteiro. Tem um monte de cursos e palestras todos os dias mas eu lá sou homem de me meter em curso ou palestra? Tá me estranhando? Comecei o curso de golfe mas foi só mandar aquelas bolinhas pro mar chutando e pediram para eu me retirar.
Aliás o que mais tem por aqui é gente prá te dizer o que você não pode fazer e o mais incrível de tudo é não poder pescar. Deve ter peixe prá caralho nesse marzão todo, trouxe toda minha tralha, desviei uns peixes crús para iscas no último jantar e na hora da pescaria mesmo veio gente de todo lado prá me encher o saco.
Merda.
Merda de vida essa que fui inventar prá mim só prá mostrar que fiquei rico.
Tava bem trabalhando lá com seu Vitor, ele arrumava os trampos, eu olhava, dizia o que tinha que ser de material, ele saía, trazia tudo e eu ficava lá trocando telha, arrumando piso em casa de bacana.
Tava tudo bem com minha Neuza que aqui dentro desse barcão nem vejo por onde ela anda. Cada dia é uma chapinha nova. Tem uma academia que não entro lá por nada lá em cima mas ela adora. Vai ver tá tendo um caso com um daqueles moleques e eu ainda vou passar por corno. Era só o que me faltava.
Tem mais 8 dias prá chegar na Espanha. Eu na Europa. Prá quê? Queria ver a Torre Eiffel mas já me disseram por aqui que ela é longe do mar. Tem que pegar um trem prá poder ver. Pegar um trem !? Se for como os trens lá do Cariri onde meu pai morava tô lascado. Vai chegar só no ano que vêm.
Tudo é sempre um pouco difícil, já reparou. Eu por exemplo, tava na minha trampando lá com Seu Vitor. Tinha construído minha casa com lage e tudo de bom, aí ganhei na loteria e o que era prá ser, prá ficar mais fácil, ficou mais dificil porque os nóias lá da vila ficaram sabendo da minha nova situação e começaram a querer saber como que é que ia ficar. Não ia ficar, eu lá sou homem de dar dinheiro prá vagabundo?
Mas aí a chapa ferveu por lá e a Neuza inventou esse troço de cruzeiro marítimo. Dar um tempo, foi o que ela falou. Você paga uma grana, entra nessa joça gigante e não faz porra nenhuma durante um tempo que prá passar tá foda. Outro dia encanei de ficar olhando prôs ponteiros do relógio prá ver se eles andavam mesmo mas aí achei que tava ficando louco e parei.
Achei uns caras da manutenção, eles andam sempre em grupo, de macacão azul, com um radio prá fora do bolso e pedi prá ver se eu podia ajudar eles com alguma coisa mas de novo disseram que não pode. Nem foram eles que me falaram, os caras são todos japas, e falam uma língua estranha sempre rindo e não entenderam nada do que eu falei pra eles.
Outro dia segui dois deles prá ver onde iam mas tem uma parte do barco lá prá baixo e bem lá na frente que não pode ir, os japas mesmo não deixam, te mostram uma placa, passam por uma porta e fecham ela na sua cara. Então você fica por aí bestando, andando prá lá e prá cá, sem rumo. No terceiro andar tem um bar com umas jarras de suco grátis, mas elas tão sempre vazias e você mostra prô cara do bar a jarra vazia e ele fala numa lingua estranha alguma coisa que eu mais uma vez não entendo.
Como será que tá o Seu Vitor? Será que já arrumou alguém prá ficar no meu lugar? E minha casa? Dona Dora disse que ficava de olho mas hora dessas os manos tomam conta e aí já era. Ainda bem que não comprei aquele DVD novo mas a TV tava da hora. Chega de ficar aqui nessa tela de computador escrevendo. Ajuda a passar o tempo mas é bem chato também. Vou lá ver se já chegou o suco. Volto já.
Categorias: Diários Ordinarios | | Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 48