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Série GPNC - Grandes Personagens que Ninguém Conhece
de felipe | Terça, 12 de Fevereiro de 2008
Nome: Sergio Augusto de Moura
Profissão: Colecionador de Robôs de Lata
Idade: 43 anos
Cidade: São Paulo
Quem vê Sergio Augusto de Moura caminhando pelas ruas movimentadas da Consolação, bairro na região central da cidade de São Paulo, próximo à Avenida Paulista, vê apenas mais um sujeito gordinho, “criado pela avó”, giria das moças da região que significa algo como um sujeito gordinho, mimado e meio antipático que não presta atenção aos dotes anatômicos dessas mesmas moças, expostos em mini minisaias e decotes generosos, mas esse não era o assunto que comecei a contar.
Quem olha Sergio Augusto voltando cheio da sacolas da quitanda próxima ao seu apartamento não acredita que ele seja o maior líder de uma quase religião que se tornou o ato de colecionar brinquedos antigos feitos de lata.
Como o maior colecionador e conhecedor desse universo, Sergio é considerado um verdadeiro Cavaleiro Jedi na guerra de estrelas que se tornou o colecionismo de robôs nos últimos anos. Ele é mais que um ídolo, é praticamente a religião em si.
Semana passada foi a principal atração de uma feira internacional de brinquedos antigos realizada em um hotel próximo à Av. Paulista e que tradicionalmente era realizada em Tóquio mas mudou se de mala e cuia aqui para as nobres terras paulistanas pois o ídolo em questão se recusa a viajar de avião. Se recusa a viajar de qualquer meio de transporte que não seja suas próprias pernas e se maomé não vai a montanha parece simples transportar uma feira e convencer aproximadamente 60 expositores de todo o mundo a se tocarem para a America do Sul e terem a honra de ver a coleção que Sergio monta desde 1969 quando ganhou o primeiro robô de uma tia casada com um marinheiro japonês.
A coleção cresceu com o tempo e hoje conta com quase sete mil robôs, todos com as respectivas caixas, que muitas vezes são mais interessantes que o conteúdo. Do modelo SX 729, por exemplo, uma engenhoca medindo 32 cm de altura, e pintada com detalhes vermelhos e brancos e um vidro incrustado na barriga, Sergio tem apenas todas as 123 unidades produzidas durante os 23 dias que durou a fábrica clandestina de brinquedos Sutaro Kai, na cidade de Nagasaki. Sutaro Kai foi um engenheiro aeronáutico que com o final da guerra comecou a montar seus robôs com as sobras de folhas metálicas jogadas no lixo de uma fábrica de baldes vizinha a sua casa e naqueles dias de total e final esforço de guerra japonês, uma fábrica de robos de brinquedos não era uma coisa muito bem vinda.
Vinte e três dias após o início da produção, os americanos resolveram o problema que os japoneses nem sabiam que tinham, soltando uma bomba de 4.5 toneladas sobre o céu da cidade e matando mais de 70 mil pessoas, incluindo Sutaro, toda sua família, amigos e desafetos.
As três primeiras caixas com os primeiros e únicos robôs produzidos por Sutaro Kai já haviam deixado a cidade no dia da bomba, 09 de agosto, para serem vendidos em Tóquio e depois de passarem mais de duas décadas esquecidas em um depósito dos correios foi doada a uma instituição para crianças japonesas na cidade de Mirassol, no profundo interior paulista dos anos 60.
Como essas duas caixas chegaram intactas ao apartamento de Sergio é tema para outra reportagem, mas ver como hordas de japoneses veneram sua coleção, ver a atenção que prestam às suas palavras quando discorre sobre detalhes da produção deste ou daquele robô faz a pessoa não inoculada por esse vírus pensar seriamente sobre o futuro da espécie humana aqui na terra.
O que faz não uma, nem duas, mas 173 pessoas, segundo os organizadores da feira, a cruzarem o planeta e pagarem 135 dólares cada para ouvir um sujeito falar por exatos 156 minutos (tempo que durou a conferência, transmitida para 18 países e traduzida em 17 línguas) sobre a produção de robôs de brinquedo!!!??
George Pasmanik, 54, engenheiro elétrico e colecionador de robôs desde a década de 60, vindo de Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, diz ter a resposta, sentado no bar do hotel tomando sua terceira cerveja após o jantar de confraternização com os participantes do evento e, literalmente, enrolando a lingua: “Somos apenas um bando de crianças ricas e mimadas se divertindo com seus brinquedos favoritos, Isn’t it great?”.
Tá certo, seu George. O tanquinho de areia só muda de tamanho e lugar. Melhor não contrariar ninguém e deixar as crianças brincarem em paz.
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