Meu cartão de memórias

Teresina, Piauí

de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008

Teresiiiinaaa. Uhh!! Uhh!!

Lembra do Velho Guerreiro? Daquele Velho Palhaço? Pois é, o que quê o ser humano não precisa fazer pra ganhar uma grana. É foda. Se bem que o Abelalardo Barbosa, tava com tudo e não tava prosa. Menino levado da breca deve ter levado todas aquelas chacrétes prá conhecer a discoteca. O velho não era fraco não, mas não vim aqui falar da Teresinha caraca. Ia ,e ainda vou, juro, falar de Teresina, no Piauí. E vou falar bem, porque falar mal de Teresina é até sacanagem.
Quem foi o gênio que fundou uma cidade naquele fim de mundo e ainda disse que ela seria a capital do nobre estado do Piauí?
Chegando lá você percebe que Teresina não é só um cafundó perdido no meio do nada nordestino. Tá certo, é um cafundó perdido no meio do nada mas também é uma cidade com avenidas largas, cheia de arvores e com uma praça antiguinha no centro, com coreto, teatro, um cinema “art noveau” restaurado e um mercado de artesanato decente e limpo.
É pouco?
É, mas quem já teve a brilhante idéia de passar uns dias em Teresina, assim por vontade própria?
Quantas vezes você ouviu alguém dizer que no próximo verão vai passar uns dias lá em Teresina, o novo point de turismo do nordeste?
Para uma cidade que deve ter um um índíce de turismo nulo, uma cidade que não tem obrigação de se arrumar para quem vêm de fora, ter uma praça antiguinha no centro, com coreto, teatro, um cinema “art noveau” restaurado e um mercado de artesanato decente e limpo é uma coisa bem legal, um sinal de auto suficiência e orgulho próprio.
Ponto para Teresina.
Visitei a UFPI – Universidade Federal do Piauí, num sábado de manhã e a biblioteca tava cheia, bem cheia de uma moçada estudando matemática, física. juntos e enquanto estava por lá caiu um toró daqueles e fiquei lembrando das enormes e inúmeras goteiras nas bibliotecas da USP. E por lá nada.
Mais um ponto para Teresina.
A 5 minutos do centro tem o bairro de Poty Velho. Parece que você está na Amazônia acredite. É onde os dois rios que banham a cidade, Poty e Parnaíba, se encontram. No restaurante flutuante do “Parque Ambiental do Encontro das Águas” tem uma calderada de um peixe daquelas águas com uma cachaça chamada mangabeira, uma cerveja bem gelada e, junto com uma porção de piabinhas fritas de entrada é mais um ponto prá Teresina. Vai contando.
Antes ou depois, melhor antes, do almoço, impossível não parar no comércio de artesanato de cerâmica que fica na estrada que leva ao parque, onde melhor que comprar é ver como se faz a queima das peças de barro em fornos a lenha montados quase no meio da rua.
Prá encerrar, tentei comprar uma camisa do time de futebol da cidade, o ilustríssimo “River” e só achei camisas do Flamengo, Barcelona e Real Madrid. O moço da loja disse que tem que encomendar. Ponto contra.

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de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008

Parte um

Vou te contar uma coisa.
Tá foda. Não tô aguentando mais.
Tô a quase um mês internado nesse barco, indo de não sei onde prá lugar nenhum porque disseram que o legal seria a viagem e não chegar ao final.
Não aguento mais nada desse lugar.
O cassino é caro e metido a besta.
Odeio a comida sem gosto e de ter que se arrumar para ir comer.
Não faço porra nenhuma o dia inteiro. Tem um monte de cursos e palestras todos os dias mas eu lá sou homem de me meter em curso ou palestra? Tá me estranhando? Comecei o curso de golfe mas foi só mandar aquelas bolinhas pro mar chutando e pediram para eu me retirar.
Aliás o que mais tem por aqui é gente prá te dizer o que você não pode fazer e o mais incrível de tudo é não poder pescar. Deve ter peixe prá caralho nesse marzão todo, trouxe toda minha tralha, desviei uns peixes crús para iscas no último jantar e na hora da pescaria mesmo veio gente de todo lado prá me encher o saco.
Merda.
Merda de vida essa que fui inventar prá mim só prá mostrar que fiquei rico.
Tava bem trabalhando lá com seu Vitor, ele arrumava os trampos, eu olhava, dizia o que tinha que ser de material, ele saía, trazia tudo e eu ficava lá trocando telha, arrumando piso em casa de bacana.
Tava tudo bem com minha Neuza que aqui dentro desse barcão nem vejo por onde ela anda. Cada dia é uma chapinha nova. Tem uma academia que não entro lá por nada lá em cima mas ela adora. Vai ver tá tendo um caso com um daqueles moleques e eu ainda vou passar por corno. Era só o que me faltava.
Tem mais 8 dias prá chegar na Espanha. Eu na Europa. Prá quê? Queria ver a Torre Eiffel mas já me disseram por aqui que ela é longe do mar. Tem que pegar um trem prá poder ver. Pegar um trem !? Se for como os trens lá do Cariri onde meu pai morava tô lascado. Vai chegar só no ano que vêm.
Tudo é sempre um pouco difícil, já reparou. Eu por exemplo, tava na minha trampando lá com Seu Vitor. Tinha construído minha casa com lage e tudo de bom, aí ganhei na loteria e o que era prá ser, prá ficar mais fácil, ficou mais dificil porque os nóias lá da vila ficaram sabendo da minha nova situação e começaram a querer saber como que é que ia ficar. Não ia ficar, eu lá sou homem de dar dinheiro prá vagabundo?
Mas aí a chapa ferveu por lá e a Neuza inventou esse troço de cruzeiro marítimo. Dar um tempo, foi o que ela falou. Você paga uma grana, entra nessa joça gigante e não faz porra nenhuma durante um tempo que prá passar tá foda. Outro dia encanei de ficar olhando prôs ponteiros do relógio prá ver se eles andavam mesmo mas aí achei que tava ficando louco e parei.
Achei uns caras da manutenção, eles andam sempre em grupo, de macacão azul, com um radio prá fora do bolso e pedi prá ver se eu podia ajudar eles com alguma coisa mas de novo disseram que não pode. Nem foram eles que me falaram, os caras são todos japas, e falam uma língua estranha sempre rindo e não entenderam nada do que eu falei pra eles.
Outro dia segui dois deles prá ver onde iam mas tem uma parte do barco lá prá baixo e bem lá na frente que não pode ir, os japas mesmo não deixam, te mostram uma placa, passam por uma porta e fecham ela na sua cara. Então você fica por aí bestando, andando prá lá e prá cá, sem rumo. No terceiro andar tem um bar com umas jarras de suco grátis, mas elas tão sempre vazias e você mostra prô cara do bar a jarra vazia e ele fala numa lingua estranha alguma coisa que eu mais uma vez não entendo.
Como será que tá o Seu Vitor? Será que já arrumou alguém prá ficar no meu lugar? E minha casa? Dona Dora disse que ficava de olho mas hora dessas os manos tomam conta e aí já era. Ainda bem que não comprei aquele DVD novo mas a TV tava da hora. Chega de ficar aqui nessa tela de computador escrevendo. Ajuda a passar o tempo mas é bem chato também. Vou lá ver se já chegou o suco. Volto já.

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de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008

De: Orlando Soares Silva

Parte dois.

Voltei. Na verdade já se passaram vários dias desde que achei essa sala com computadores e comecei a escrever. Comecei a escrever, vê se pode. Passei quase 30 anos sem escrever nem uma frase no papel de pão e agora tô aqui de bacana escrevendo num computador. A loira aqui do meu lado perguntou se era prô meu brogui. Brogui, nunca ouviu falar? Nem eu, mas dei uma risada, disse oh yes e percebi que depois dessas semanas todas internado nesse barco posando de bacana tô me sentindo como numa novela em que faço parte da parte dos ricos. Sempre reparei que nas novelas tem os ricos e os pobres que se encontram mas nunca se misturam de verdade tipo o rico casando com a pobre e se mudando prá casa dela. As vezes a pobre casa com o rico só prá ser esculhambada pelas amigas ricas e invejosas do cara e se der certo no final ela se vinga. Tinha também um filme com uma dessas gringas famosas, uma bem magra que nesse filme é uma puta e o cara se apaixona por ela. Lembro que ela rouba o fio dental do hotel e fica falando prás amigas que o trouxa é um cara super legal. Aí ela se faz de difícil, vê se pode, puta se fazendo de difícil e aí é que o troxa, um com uma cara bem de gringo otário, se apaixona de vez. O final eu não lembro mas também não lembro por que começei a escrever sobre isso então tudo bem.
Nesse barco é tipo um Big Broder gigante, sei lá como se escreve isso, e as vezes penso que tem alguém me filmando e aí vou ver tem mesmo um cara que filma as pessoas o tempo todo prá depois passar no telão do restaurante na hora do jantar.
Vou ter que confessar que paguei esse mico, de calção vermelho, barrigão mais vermelho ainda, meio briaco na beira da piscina e aí chegou esse cara da câmera e eu comecei a fazer umas caretas tipo engraçadinho sabe? Me ferrei, o cara começou o vídeo show dele outra noite com minha careta e toda vez que ela aparecia o pessoal ria, mas ria mesmo e a Neuza só me dando bicuda na canela por baixo da mesa. Acabei como o palhaço da noite. Fiz a diversão desse bando de desocupados que ri até de gaivota perdida no céu. Aí aparece um trouxa feito eu fazendo micagem, era só o que eles estavam esperando pra rir feito umas bestas.
O bom foi que a loira aqui do meu lado na sala de computadores também achou graça e hoje ela até puxou conversa mas ainda não conseguimos nos comunicar porque ela fala uma língua que parece que tá falando ao contrário e eu também não ajudo, começo a gaguejar em português mesmo e no final não sai nada. Ela me mostrou em um mapa de onde ela veio, ou melhor, esta voltando. É bem lá em cima do mapa e tem o melhor nome para um lugar bem longe: Finland. Descobri que land é terra em inglês, quer dizer, terra do fim. Terra do fim do mundo deve ser mas essa loira rindo aqui do meu lado não sei não. Já pensou ? Eu de caso com uma loira dessas. O problema é que não sei nem por onde começo o xaveco porque a gente só se olha e ri um prô outro e pensando bem é assim que deveria ser a vida: Todas as mulheres loiras de verdade e sempre sorridentes.
Nesse computador tem um dicionário de português e inglês, achei também um de inglês e finlandês porque preciso saber umas palavras para o meu curso intensivo de como transar com uma gringa loira sem ser jogado ao mar por uma mulata ciumenta.
Primeira palavra: sózinha. Em inglês é alone e em finlandês “ainoastaan”.
A próxima: Caraca, não sei qual a próxima coisa prá perguntar usando só uma palavra. Tinha que ser alguma coisa do tipo “vamos tomar um drink hoje depois do jantar?” mas como resumo tudo isso em uma palavra só? Drink? Em finlandês é “juoma”. Depois é after e jantar é dinner. Em finlândes é jalkeen e paivallinen. “Oi, você quer um drink after do dinner?”, depois dou aquele meu sorriso 7B, tento a versão finlândica “Hei sina juona jalkeen paivallinen?” com o mesmo sorriso e aí é só arrastar a gringa prô quarto dela. Amanhã conto as novidades aqui nesse meu brogui.

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de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008

Parte três

Pobre é uma merda mesmo, nem quando fica rico toma jeito. Nem vou te contar agora a merda que deu essa minha história de passar um xaveco na gringa. Mas vou mudar um pouco de assunto antes.
Teve uma vez que tava trampando numa mansão lá no morumbi e tinha umas minas sem a parte de cima do biquíni na piscina da casa, elas não viram que eu tava trabalhando no telhado e eu fiquei na minha só apreciando a vista mas aí duas delas começaram a se beijar. Vê se pode? Elas eram lindas, ricas e, vai ver que por isso mesmo, sapatas. Fiquei pensando que era a versão feminina daquela música que fala “porque homem é homem, menino é menino, político é político e viado é “viado”, sabe qual é? Tem uma parte que ele explica que a baitolagem muitas vezes é adquirida, a pessoa experimenta de tudo na vida e fica tão experimentado que acaba virando viado. Com essas meninas deve ter acontecido a mesma coisa. Como elas tinham tudo, ser sapata era só mais uma aventura, como usar drogas, dirigir bem rápido. Sei lá.
Tá vendo no que dá o sujeito não ter o que fazer o dia inteiro? Vira filosofo. Quer dizer, eu já era filosofo em cima daquele telhado, só não tinha tempo de ficar escrevendo sobre a baitolagem adquirida. Meu negócio era mesmo pegar no batente todo dia logo cedo pra conseguir pagar minhas contas mas agora tudo mudou. Se eu quiser posso ter uma casa igual aquela do morumbi com um baiano só prá arrumar o telhado e meus filhos não vão precisar trabalhar, vão poder ficar na piscina se beijando na boca. Ser rico pode ser uma merda também.
13, 24, 27, 44, são os números do meu RG, 30 a minha idade e 32 a idade da Neusa e esses eram os números que sempre jogo, quer dizer, todo ano muda um pouco mas jogo esses números toda semana na Mega Sena e não é que um dia deu seco esses 6 números? Fui conferir no jornal que tava no carro do Seu Vitor e devo ter ficado bem branco porque ele parou o carro achando que eu tava tendo um troço, fiquei engasgado e não conseguia falar nada. Só apontava prô jornal e quando ele entendeu o que estava acontecendo só ouvi ele rezando, “Valha me Deus minha Nossa Senhora” Na hora não entendi por que ele começou a rezar mas depois ele me confessou que estava cheio de dívidas e que eu poderia ajudar ele nesse departamento.
Quando fomos lá na Caixa com o bilhete ele me ajudou na conversa com o gerente, falando prá não colocar todo o dinheiro na poupança e sim num outro negócio chamado, sei lá eu, CDB, DCB, não sei agora, mas que ia me deixar mais rico ainda e então eu disse que poderia ajudar ele com as dívidas e ele começou a chorar ali na minha frente e do gerente.
Vou ter que parar agora, depois conto o resto.

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Diários Ordinários 4

de felipe | Terça, 19 de Fevereiro de 2008

Diários ordinários

Autor: Orlando Soares Silva
Idade: 36 anos

Parte quatro

Nessa minha história de como fiquei rico tinha que ter essa parte então agora que já contei vou voltar prás histórias aqui do barco e contar a merda que deu com a gringa quando falei do drink after dinner com meu sorriso especial. O que aconteceu foi que ela começou a rir, me apresentou uma outra loira bem maior que ela só que com o cabelo bem curto, uma camiseta sem mangas e sem sutiã.
Saquei a merda logo que essa outra loira veio chegando e me fuzilou com uma cara de brava. A sorte foi que o que ela disse prá Neusa foi numa mistura de varias línguas mas a Neusa, que não nasceu ontem, nem anteontem, quando chegou na cabine me mandou o tamanco na cabeça e queria me proibir de vir até aqui ficar escrevendo no computador. Depois dei uma de macho e disse que ia proibir ela de ficar tanto tempo na academia e a história acabou por aí mesmo. A loira sumiu daqui da sala e agora prá falar a verdade nem tenho mais do que contar. Se lembrar de mais alguma coisa volto.

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Sergipe

de felipe | Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Você conhece Aracajú? Aposto que não.
O menor estado brasileiro é um ermo que bem pouca gente conhece.
É Nordeste, vizinho da Bahia, tem boas praias, mulher bonita etc… só que ninguém vai. Fui fotografar uma matéria de turismo sobre a cidade mas não deu, não tinha assunto suficiente e a solução foi se meter no sertão para conhecer algumas cidades como São Cristóvão, uma cidadezinha antiga e bem preservada que vale a gasolina que se gasta para chegar lá.
Na divisa com Alagoas, nas margens do São Francisco tem o lago da hidroelétrica de Xingó, onde da beira da barragem sai um barco até o que sobrou de canyons que tinham mais de 100 metros de altura e que em qualquer país civilizado seriam preservados e valorizados como incríveis formações geológicas, mas por aqui o negócio é fazer uma barragem e encher d’agua em nome de um progresso que não chegou naquele cafundó.
Beirando o São Francisco, da barragem até o mar, o rio recupera um pouco de sua dignidade em cidades antigas e bem preservadas como Piranhas, (uma incrível cidade toda colorida no lado das Alagoas) ou caindo aos pedaços como Propriá e Penedo. Ainda volto pra lá, porque bem ou mal a navegação à vela ainda existe naquelas águas e vou fotografar para essas páginas de projetos especiais.

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Série GPNC - Grandes Personagens que Ninguém Conhece

de felipe | Terça, 12 de Fevereiro de 2008

Nome: Sergio Augusto de Moura
Profissão: Colecionador de Robôs de Lata
Idade: 43 anos
Cidade: São Paulo

Quem vê Sergio Augusto de Moura caminhando pelas ruas movimentadas da Consolação, bairro na região central da cidade de São Paulo, próximo à Avenida Paulista, vê apenas mais um sujeito gordinho, “criado pela avó”, giria das moças da região que significa algo como um sujeito gordinho, mimado e meio antipático que não presta atenção aos dotes anatômicos dessas mesmas moças, expostos em mini minisaias e decotes generosos, mas esse não era o assunto que comecei a contar.
Quem olha Sergio Augusto voltando cheio da sacolas da quitanda próxima ao seu apartamento não acredita que ele seja o maior líder de uma quase religião que se tornou o ato de colecionar brinquedos antigos feitos de lata.
Como o maior colecionador e conhecedor desse universo, Sergio é considerado um verdadeiro Cavaleiro Jedi na guerra de estrelas que se tornou o colecionismo de robôs nos últimos anos. Ele é mais que um ídolo, é praticamente a religião em si.
Semana passada foi a principal atração de uma feira internacional de brinquedos antigos realizada em um hotel próximo à Av. Paulista e que tradicionalmente era realizada em Tóquio mas mudou se de mala e cuia aqui para as nobres terras paulistanas pois o ídolo em questão se recusa a viajar de avião. Se recusa a viajar de qualquer meio de transporte que não seja suas próprias pernas e se maomé não vai a montanha parece simples transportar uma feira e convencer aproximadamente 60 expositores de todo o mundo a se tocarem para a America do Sul e terem a honra de ver a coleção que Sergio monta desde 1969 quando ganhou o primeiro robô de uma tia casada com um marinheiro japonês.
A coleção cresceu com o tempo e hoje conta com quase sete mil robôs, todos com as respectivas caixas, que muitas vezes são mais interessantes que o conteúdo. Do modelo SX 729, por exemplo, uma engenhoca medindo 32 cm de altura, e pintada com detalhes vermelhos e brancos e um vidro incrustado na barriga, Sergio tem apenas todas as 123 unidades produzidas durante os 23 dias que durou a fábrica clandestina de brinquedos Sutaro Kai, na cidade de Nagasaki. Sutaro Kai foi um engenheiro aeronáutico que com o final da guerra comecou a montar seus robôs com as sobras de folhas metálicas jogadas no lixo de uma fábrica de baldes vizinha a sua casa e naqueles dias de total e final esforço de guerra japonês, uma fábrica de robos de brinquedos não era uma coisa muito bem vinda.
Vinte e três dias após o início da produção, os americanos resolveram o problema que os japoneses nem sabiam que tinham, soltando uma bomba de 4.5 toneladas sobre o céu da cidade e matando mais de 70 mil pessoas, incluindo Sutaro, toda sua família, amigos e desafetos.
As três primeiras caixas com os primeiros e únicos robôs produzidos por Sutaro Kai já haviam deixado a cidade no dia da bomba, 09 de agosto, para serem vendidos em Tóquio e depois de passarem mais de duas décadas esquecidas em um depósito dos correios foi doada a uma instituição para crianças japonesas na cidade de Mirassol, no profundo interior paulista dos anos 60.
Como essas duas caixas chegaram intactas ao apartamento de Sergio é tema para outra reportagem, mas ver como hordas de japoneses veneram sua coleção, ver a atenção que prestam às suas palavras quando discorre sobre detalhes da produção deste ou daquele robô faz a pessoa não inoculada por esse vírus pensar seriamente sobre o futuro da espécie humana aqui na terra.
O que faz não uma, nem duas, mas 173 pessoas, segundo os organizadores da feira, a cruzarem o planeta e pagarem 135 dólares cada para ouvir um sujeito falar por exatos 156 minutos (tempo que durou a conferência, transmitida para 18 países e traduzida em 17 línguas) sobre a produção de robôs de brinquedo!!!??
George Pasmanik, 54, engenheiro elétrico e colecionador de robôs desde a década de 60, vindo de Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, diz ter a resposta, sentado no bar do hotel tomando sua terceira cerveja após o jantar de confraternização com os participantes do evento e, literalmente, enrolando a lingua: “Somos apenas um bando de crianças ricas e mimadas se divertindo com seus brinquedos favoritos, Isn’t it great?”.
Tá certo, seu George. O tanquinho de areia só muda de tamanho e lugar. Melhor não contrariar ninguém e deixar as crianças brincarem em paz.

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Salinas, Minas Gerais

de felipe | Segunda, 11 de Fevereiro de 2008

Salinas é uma cidadezinha no nordeste mineiro pouco antes da pobreza do Jequitinhonha e que por uma sorte qualquer dessas da vida pegou carona no fetiche da cachaça de Anísio Santiago, um produtor que decidiu que sua cachaça era mais que especial e começou a vendê-la pelo preço de whisky escocês. O povo acreditou e o que veio depois tem mais a ver com psicologia e todo um papo cabeça sobre como algo vira moda, fetiche, do que com a qualidade da cachaça, que é boa, “boazinha”, como o nome da cachaça do maior maluco beleza da região, Antonio Rodrigues, que de maluco tem só o jeitão, usando uma fantasia diferente cada dia da semana “só pra chocar esse povinho besta” diz ele vestido de santo beneditino. O sujeito percebeu o potencial da produção da cachaça na região, ajudou a criar o slogan da “Capital Mundial da Cachaça” e além de produzir e comercializar a Boazinha e a Seleta (que são as cachaças de Salinas que mais tem em SP) produz os insumos para que outros comecem a produzir também. Quer um alambique de cobre? Um tonel de umburama? Fermento? Apostilas? tem tudo lá com o seu Antonio.
Sobre a Havana, atual nome da cachaça feita hoje em dia pelo filho de Anísio Santiago, não sei nada. Sei que é boa. Comprei uma garrafa na época que estive lá e pouco a pouco estou estudando o assunto.

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Buenos Aires

de felipe | Quarta, 6 de Fevereiro de 2008

Buenos Aires é tudo que um paulista queria que São Paulo fosse.
Uma cidade minimamente arrumada, pessoas civilizadas e falar de um estado de espírito é algo um tanto vago e meio aviadado, mas andar por aquelas ruas e ficar vendo aqueles velhinhos de paletó e gravata, aqueles tantos cafés, aqueles prédios antigos e preservados, aquelas taças de vinho por três, quatro pesos, dá uma tristeza saber que tão perto de nós tem um lugar que a despeito de problemas financeiros bem mais profundos que os que enfrentamos a tantos anos, soube manter a dignidade, um jeito decente de viver e bairros inteiros perto do centro vivem suas vidas sem serem devastados.
A sensação que sempre tenho que São Paulo foi uma grande cidade para se viver até o início dos anos 70, se materializa andando por aquelas ruas e lembrando o que aconteceu com o Bom Retiro, por exemplo, que de bom e de retiro sobrou só o tiro (sorry, não agüentei o trocadilho). Toda aquela arquitetura que fez o Brasil famoso, justamente nos anos 60, aquele bem viver classe média urbana foi abandonado por uma falta de projeto que deu nesse caos que vivemos hoje.
Resumindo, você anda por aqueles bairros do centro de Buenos Aires, lembra do Largo da Batata e dá uma certa tristeza.
Fui de férias em Julho de 2006, conheci bem pouco da cidade e fotografei menos ainda mas queria deixar essa página aberta para ter que voltar lá tantas vezes quanto for necessário para essa página ter uma cara decente.

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Rondônia

de felipe | Quarta, 6 de Fevereiro de 2008

Rondônia não dá.
Imagine o fim do mundo.
É lá.
Um lugar sem cara que não tem nenhum sentido em existir; Nasceu de um projeto furado de um capitalista que só queria enganar o governo brasileiro e boliviano numa maracutaia que parecia saída do congresso nacional nos dias de hoje e ao invés de se esquecer tudo e deixar a mata tomar conta, Rondônia teimou e na base do vamos roubar tudo logo porque senão outro vêm e leva tudo no meu lugar, vai sendo pouco a pouco, (ou melhor, muito e muito, dado que a riqueza é imensa) roubada, dilapidada em cada árvore na pouca mata que ainda sobrou, nos peixes que são mortos por uma gente que não sabe que amanhã vai ter fome de novo e que não adianta pescar com dinamite e redes miúdas todos os peixes que vêm pela frente.
Porto Velho é uma cidade espalhada sem nenhum atrativo especial a não ser o Rio Madeira que por ser enorme agüenta o tranco da poluição e nas épocas de seca (setembro a março) mostra imensas pedras e dá pra ver o tamanho do rio lá do meio. A coisa é tão triste que a maior atração da cidade é um enorme ferro velho abandonado caindo aos pedaços onde ficam os escombros da ferrovia Madeira-Mamoré, prá quem gosta existem imensas pontes de metal perdidas pelo interior, no meio do nada.
Tem também as queimadas que não é um privilégio só de Rondônia mas de toda essa região norte do Brasil que literalmente começa a pegar fogo em agosto e vai torrando até a chuva ter forças para apagar tudo, o que só ocorre em janeiro, fevereiro ou março, não sei. Enquanto isso as pessoas vivem esses meses de molho em uma fumaça branca que dá vontade de sair gritando, correndo pelas ruas de Porto Velho dizendo prá cada pessoa que passa que não é possível um ser humano achar normal passar 4, 5 meses por ano sem ver um céu azul, e ainda dizer que é sempre assim, que sempre foi assim e eu acho que só vai piorar ou você acha o quê? Que a partir do ano que vêm a Europa e o Japão vão parar de comprar madeira e/ou carne brasileira e esse bravo povo brasileiro vai dizer chega, que o negócio agora é preservar a pouca natureza que resta e ir pra casa ler um livro?
Chega digo eu.
Veja as imagens desse fim de mundo.
Espero que goste.
Esqueci de dizer que o calor é insuportável.
PS. Quando você pensa que tudo por lá já era suficientemente ruim, nosso nobre sindicalista decidiu dar uma força e destruir literalmente a única atração turística natural do estado que é a cachoeira de Santo Antonio fazendo uma hidroelétrica superfaturada. É o pogresso, eles dizem.

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